Apresentação sobre o desenvolvimento do DIORS® destacou a importância da pesquisa, da propriedade intelectual, da validação científica e do empreendedorismo na criação de produtos médico-odontológicos
Transformar uma necessidade identificada na prática clínica em uma solução capaz de chegar ao mercado e beneficiar pacientes exige muito mais do que uma boa ideia. Esse processo envolve pesquisa, desenvolvimento, validação, proteção da propriedade intelectual, regulamentação, empreendedorismo e a construção de parcerias.
Foi a partir dessa perspectiva que a Profa. Dra. Denise Fernandes Barbosa, cirurgiã-dentista e pesquisadora voluntária da Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ), conduziu, em maio de 2026, a palestra “DIORS®: do Protótipo ao Produto Médico Regulamentado – Trilhas para certificação, ensaios clínicos e estratégias de entrada no mercado”, realizada durante a Semana da Inovação e Saúde.
A atividade apresentou aos participantes a trajetória de desenvolvimento do DIORS®, mostrando, a partir de uma experiência concreta, os diferentes caminhos percorridos entre a identificação de um problema e a transformação de uma solução baseada em ciência em um produto com potencial de aplicação e escala.
Da identificação de um problema à criação de uma solução
A palestra teve como ponto de partida a experiência da pesquisadora com os distúrbios respiratórios relacionados ao sono, especialmente a Apneia Obstrutiva do Sono (AOS).
Durante a apresentação, foram abordados aspectos relacionados à condição, incluindo sua associação com diferentes comorbidades, além dos desafios relacionados ao diagnóstico e à adesão aos tratamentos convencionais. O material apresentado também destacou a dimensão do problema e seu impacto para a saúde, a economia e o sistema de saúde.
Nesse contexto, a identificação de uma necessidade concreta deu origem a uma jornada de inovação que passou por diferentes etapas de desenvolvimento.
A trajetória do DIORS® teve início em 2009 e incluiu etapas de testes e desenvolvimento, registro de modelo de utilidade, constituição da empresa, processos de validação, patente de invenção e criação da startup DIORS®. Entre 2025 e 2026, a trajetória apresentada encontrava-se em uma etapa de incubação e pós-doutorado.
Da clínica à pesquisa e ao empreendedorismo
Um dos pontos de destaque da apresentação foi a integração entre experiência clínica, pesquisa acadêmica e empreendedorismo.
A trajetória apresentada por Denise Barbosa mostrou como a observação de um problema na prática profissional pode contribuir para a formulação de perguntas de pesquisa e, posteriormente, para o desenvolvimento de uma solução tecnológica.
Durante a palestra, foram apresentados os diferenciais do DIORS®, entre eles a aplicabilidade clínica, a abordagem individualizada, o potencial de monitoramento futuro, a possibilidade de recorrência e a escalabilidade por meio da impressão 3D.
A experiência também evidenciou a importância de compreender a inovação como um processo contínuo, que envolve diferentes conhecimentos e competências desde a identificação de uma oportunidade até a possibilidade de inserção da solução no mercado.
Propriedade intelectual como estratégia para a inovação
A propriedade intelectual também ocupou espaço importante na palestra.
A apresentação destacou que a proteção de uma tecnologia poderia contribuir para aumentar sua credibilidade científica e empresarial, elevar o valor da startup e da tecnologia, facilitar a captação de recursos e o estabelecimento de parcerias, além de criar barreiras competitivas e possibilitar maior proteção para a expansão do produto.
Nesse sentido, a propriedade intelectual foi apresentada não apenas como uma forma de proteção, mas como parte estratégica do processo de desenvolvimento de uma inovação em saúde.
A palestra sintetizou essa perspectiva ao destacar que, na área da saúde, proteger uma inovação significa também criar condições para que ela possa avançar e chegar ao paciente.
Validação científica e de mercado
Outro aspecto abordado foi a importância da validação científica e de mercado para o desenvolvimento de uma solução em saúde.
No caso do DIORS®, foram apresentadas pesquisas envolvendo profissionais da Odontologia do Sono e estudos observacionais relacionados à utilização do dispositivo em pacientes com Apneia Obstrutiva do Sono. Entre os trabalhos apresentados estavam estudos que compararam o DIORS® ao CPAP e pesquisas que avaliaram os resultados antes e depois da utilização do dispositivo.
A palestra mostrou, assim, que o desenvolvimento de uma tecnologia não se encerra na criação de um protótipo. A solução precisa ser continuamente avaliada, aprimorada e validada para avançar em sua trajetória de desenvolvimento.
Os desafios entre a pesquisa e o mercado
A apresentação também abordou o chamado “Vale da Morte da inovação“, expressão utilizada para representar uma das etapas mais críticas da trajetória de uma startup.
Nesse percurso, foram destacados desafios relacionados à transferência de tecnologia, propriedade intelectual, validação clínica, regulamentação, ensaios clínicos, fabricação, vendas e escala. Também foram apontados fatores como fluxo digital, padronização, rastreabilidade, questões financeiras, formação de equipe e aproximação com a indústria.
A discussão evidenciou que uma solução cientificamente promissora precisa superar diferentes barreiras para alcançar o mercado e, principalmente, chegar de maneira segura e adequada ao usuário final.
Inovação em saúde depende de um ecossistema
Ao abordar os próximos passos da trajetória do DIORS®, a palestra destacou que a inovação em saúde não depende apenas da ciência ou da tecnologia, pois a construção de um ecossistema de inovação, com integração entre ciência, clínica e tecnologia, foi apresentada como elemento fundamental para que as soluções possam avançar.
Nesse contexto, também foi ressaltada a importância de pensar na aplicação das inovações no Sistema Único de Saúde (SUS), considerando possibilidades de escala nacional e potencial global.
Uma jornada de inovação que continua
Ao compartilhar a trajetória do DIORS®, a Profa. Dra. Denise Fernandes Barbosa apresentou aos participantes da Semana da Inovação e Saúde uma experiência que reuniu ciência, prática clínica, desenvolvimento tecnológico e empreendedorismo.
A trajetória demonstrou que transformar um problema em uma solução inovadora é um processo de longo prazo, que envolve diferentes etapas, profissionais e áreas de conhecimento.
A realização da palestra contribuiu para ampliar as discussões sobre os caminhos necessários para que o conhecimento produzido a partir da pesquisa possa se transformar em soluções aplicáveis à sociedade.
Para a FMJ, a Semana da Inovação e Saúde 2026 representou também uma oportunidade de aproximar a comunidade acadêmica das discussões sobre inovação, empreendedorismo e desenvolvimento de tecnologias voltadas à saúde, estimulando a reflexão sobre o papel da ciência na construção de soluções para desafios reais.
Como destacou a apresentação, transformar um serviço em um produto médico-odontológico regulamentado não representou apenas um processo de inovação, mas também um compromisso com o paciente, com a ciência e com o futuro da saúde.

