Palestra realizada durante a Semana da Inovação e Saúde destacou os desafios éticos, regulatórios e profissionais trazidos pela incorporação da IA à prática clínica
A Inteligência Artificial já faz parte da realidade da medicina. Mas, diante de uma tecnologia que pode transformar diagnósticos, decisões e processos de cuidado, uma pergunta ganha cada vez mais importância: como utilizar a IA de maneira responsável, segura e ética?
Foi a partir dessa reflexão que a Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ), por meio do Núcleo de Inovações Tecnológicas (NIT), promoveu, em maio de 2026, durante a Semana da Inovação e Saúde, a palestra “Responsabilidade e Ética na IA Clínica” ministrada pela Dra. Ana Cláudia Ferigato, advogada pós graduada em LGPD e COMPLIANCE, com foco na área da Saúde corporativa.
A atividade reuniu reflexões sobre um dos temas mais atuais da área da saúde: a relação entre inovação tecnológica, responsabilidade profissional e cuidado com o paciente. Em uma abordagem voltada para situações práticas, a palestra discutiu questões que já fazem parte do cotidiano de profissionais e instituições de saúde, como o uso de ferramentas de IA, proteção de dados, responsabilidade pelas decisões clínicas e transparência dos algoritmos.
Da inovação à responsabilidade
Um dos principais pontos abordados foi o cenário regulatório da Inteligência Artificial na medicina. A palestra apresentou a Resolução CFM nº 2.454/2026, destacando seus impactos para a prática profissional e a necessidade de adequação às novas regras.
Entre os princípios discutidos estão a preservação da autonomia médica, o consentimento informado e a transparência na utilização dos sistemas de IA. A tecnologia, nesse contexto, deve atuar como ferramenta de apoio à decisão, sem substituir a responsabilidade do profissional pela conduta clínica.
A discussão também contemplou a classificação dos sistemas de IA conforme seus níveis de risco, chamando atenção para a necessidade de diferentes mecanismos de controle, validação e rastreabilidade de acordo com o impacto potencial da tecnologia sobre o cuidado em saúde.
Bioética na era dos algoritmos
Outro destaque da palestra foi a discussão sobre bioética algorítmica. Os tradicionais princípios da bioética — beneficência, não maleficência, autonomia e justiça — foram relacionados aos novos desafios impostos pela Inteligência Artificial.
Entre as questões levantadas estiveram os possíveis vieses dos algoritmos, a necessidade de validação dos sistemas em diferentes populações, o direito do paciente de ser informado sobre o uso da tecnologia e os riscos de que ferramentas desenvolvidas a partir de determinados conjuntos de dados possam reproduzir ou ampliar desigualdades.
A palestra também ressaltou a importância da proteção das informações dos pacientes. Nesse contexto, foram discutidas a relação entre IA e sigilo profissional, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e, nos casos que envolvem crianças e adolescentes, as exigências relacionadas ao ECA Digital.
Governança: um desafio também institucional
A responsabilidade pelo uso ético da Inteligência Artificial não se limita ao profissional que utiliza a ferramenta. A palestra destacou também o papel das instituições de saúde na criação de estruturas de governança capazes de acompanhar e avaliar a utilização dessas tecnologias.
Entre os aspectos apresentados estão a avaliação preliminar de riscos, a análise dos fornecedores, a rastreabilidade das decisões assistidas por IA e a criação de mecanismos que assegurem o uso seguro e responsável dos sistemas.
Mais do que acompanhar uma tendência tecnológica, a proposta da palestra foi estimular uma mudança de perspectiva: inovar em saúde também significa saber questionar, avaliar e estabelecer limites para as tecnologias que chegam à prática clínica.
Ao promover esse debate, o Núcleo de Inovações Tecnológicas da FMJ reforça seu papel na aproximação entre tecnologia, ciência, saúde e responsabilidade. Afinal, como sintetizado na palestra, a Inteligência Artificial fará parte da medicina, mas a medicina precisará recebê-la com responsabilidade.

